Título: Neve de Primavera
Editora: Editorial Presença
Nº de páginas: 305
Autor: Yukio Mishima
Quando a conversa no colégio versou a Guerra Russo-Japonesa, Quioáqui Matsugae perguntou ao seu melhor amigo, Xiguecuni Honda, se se lembrava bem dela. As memórias de Xiguecuni eram também vagas - apenas recordava ter sido levado uma vez ao portão da frente para ver uma marcha de lanternas . No ano em que a guerra acabara tinham os dois onze anos, e parecia a Quioáqui que deviam ser capazes de a recordar com um pouco mais de nitidez. Os seus colegas, que falavam da guerra com tanta sabedoria, limitavam-se quase sempre a embelezar recordações enevoadas com pedaços de memórias ouvidos a adultos.
Este é o primeiro parágrafo do livro de Yukio Mishima escrito em 1969. Neve de Primavera é o primeiro livro de uma tetralogia O Mar da Fertilidade " cujas páginas finais Mishima entregou ao seu editor em 25 de Novembro de 1970, no próprio dia em que pôs termo à vida, num acto ritual de suicídio que abalou a opinião mundial."
Tudo se passa depois da Guerra Russo-Japonesa onde, num Japão renovado, um jovem melancólico e que despreza o infantil, que procura o trágico e o limite, ultrapassa todas as barreiras para fazer o que quer, quando quer, não se importando com quem coloca em risco.
Numa viagem que nos entrega ao detalhe, Neve de Primavera é dissertada com extremo pormenor, ao extremo da descrição. Cada folha, cada peça de roupa é levada ao limite, minuciosamente descritos e comparados sempre e exclusivamente a uma natureza pura, selvagem, não tocada e conspurcada pelo Homem.
Toda esta aventura é passada com uma sensação de paz, que voamos em nuvens e não sabemos nem como nem porquê. Nesta história com um ponto final bem dado, Mishima envolve-nos numa bolha japonesa em que não queremos sair.
Uma leitura um pouco estranha em que ficamos perante uma época e um lado do mundo que em muito não se identifica com este, tendo à nossa frente um testemunho da beleza e minúcia japonesa.
Bom Apetite
Traça
